Quando o cérebro escuta “vou te contar uma história”, faz um clique e começa a prestar atenção.
Quando ele escuta “vou te contar o que você tem que fazer”, ativa outro clique, ligado à desconfiança, à autodefesa e a atenção se vai.
Histórias são emocionantes, chamam a atenção, fazem com que a gente se envolva, se imagine no lugar do protagonista, faz a gente pensar na moral que tem por trás, sem mostrar que está pensando nisso. E se servir a carapuça... Está dada a mensagem.
Storytelling é uma arte dos tempos das cavernas, quando a gente tinha que fazer algo no fim do dia, uma vez que não existia ainda Facebook nem TV a cabo. Então a gente contava histórias que compartilhavam experiências, que ensinavam aos mais jovens, que davam exemplos ou que simplesmente divertiam a audiência.
Empresas estão cada vez mais se aproveitando da força do storytelling e estão contando histórias ao invés de fatos, dados, características ou mesmo benefícios.
Ouvi no ótimo curso Storytelling & Transmedia, na ESPM, com Bruno Scartozzoni, Fernando Palacios e Marta Terenzzo, entre outras ótimas coisas, que “só sobreviverão as empresas que tiverem uma boa história para contar”.
Acredito nisso, mas meu foco, no storytelling, é capacidade de influência, exemplificação e convencimento que uma história tem, especialmente na minha área de atuação, o treinamento.
Annette Simmons, uma maravilhosa storyteller, autora do livro “Story Factor” (editora Basic Books, sem lançamento no Brasil), ensina que no campo da influência pessoal, existem seis tipos de histórias para contar:
Quem eu sou
Porque estou aqui
Visão
Ensinamentos
Valores
Eu sei o que vocês estão pensando
(traduções totalmente livres!)
Histórias tipo “Quem sou eu”
Não conte quem você é, como você é bom, como sua empresa é sensacional. Conte uma história que diga tudo isso.
Uma vez eu perguntei a um representante de uma empresa como era o atendimento deles. A pessoa me contou um case de como eles vararam a noite em uma entrega e como eles fizeram coisas que nem estavam no escopo do projeto. Foi mais eficiente.
Histórias do tipo “Por que estou aqui”
Uma vez um cliente reclamou comigo o fato de algumas empresas se posicionarem com algo do tipo “posso te ajudar em alguma coisa?”. Ele dizia que ninguém quer ajudar, todos querem é fazer negócios, então que seria melhor se posicionar com “o que você está precisando que eu posso te fornecer e que pode ser bom para nós dois?”. Claro, cada ramo de negócio tem suas particularidades e seria muito estranho um médico me perguntar se eu teria alguma doença em que ele poderia fazer negócio comigo. Mas o que fica aqui é que seria interessante deixar claro, desde início, qual sua intenção e que isso poderia ser feito por meio de uma história e não por meio de uma declaração apenas.
Histórias sobre uma “Visão”
CEOs definem metas... Crescer 100% em 5 anos, sei lá. E jogam isso para todos e exigem esforços coletivos, integração, motivação... Que tal uma história inspiradora, que leve todos a compartilhar essa visão? Vou contar uma história que já tinha ouvido e que tem no livro da Annette.
Numa obra, perguntaram a três operários o que estavam fazendo. “Assentando tijolos”, respondeu o primeiro. “Construindo uma parede”, disse o segundo. O terceiro, que estava cantarolando enquanto fazia o mesmo serviço dos outros dois, respondeu alegremente: “construindo uma catedral!” Isso é mais influenciador do que apenas dizer “dediquem-se a este crescimento de 100% em cinco anos”.
Histórias que “Ensinam”
Essa é fácil. Todos têm histórias de filósofos, professores, sábios, mentores, profetas, que ensinam alguma coisa.
Funciona melhor contar um “causo” sobre algum tema a ser ensinado do que dar aquela lição de moral.
Os treinamentos, hoje em dia, usam e abusam desse recurso, com trechos de filmes, role playing, filmes e mais filmes do youtube...
História sobre “Valores”
Nada mais fácil do que apenas falar daquilo que se acredita, nos seus valores ou nos valores da sua empresa. Nada mais fácil de se desconfiar disso também. Porém, se for por intermédio de uma história, esses valores serão melhor “escutados”, apreendidos e acreditados. Se for um case, melhor ainda.
Conte uma história que aconteceu com você e seu avô, por exemplo, onde ele te ensinou o valor da honestidade. Isso soa melhor do que dizer… Sou honesto.
Eu sei o que vocês estão pensando
Todo facilitador, professor ou palestrante já pegou uma audiência bem desconfiada do que ia acontecer, cheia de objeções, resistências e desconfianças. Uma pesquisa prévia sobre o público pode te ajudar a definir essas objeções. E uma boa história para começar o dia, em que você mostra que sabe que eles têm essa objeção e que vai levar isso em conta, pode ajudar muito. Se o tema é chato, tipo um monte de estatísticas, comece dizendo que a última vez que você fez uma apresentação desse tipo, poucos restaram conscientes até o final... Isso quebra o clima, mostra que sabe o que eles temem e, claro, não faça uma apresentação chata, pelo amor de Deus. Não confirme o que eles estão temendo.
Um último detalhe, super importante: se você quer ser um bom storyteller, um bom contador de histórias, tem que ser um ótimo “escutador” também.
Só conta boas histórias quem sabe ouvir boas histórias, especialmente se elas vierem do seus clientes, do seu público-alvo.
José Rodrigues Passarinho
(foto: dreamstime, 11795106)